.Falando sobre mim...
Hoje encontrei uma pessoa que há muito tempo não via.
Ela me perguntou sobre a minha vida, eu pela dela. Conversamos bastante, como se quiséssemos recuperar o tempo perdido.
Comentei com ela sobre o câncer que tive. Para minha surpresa ela chorou enquanto eu ia falando sobre minha experiência. Perguntei por que chorava e, ela respondeu: ”Você quase morreu e eu nem sabia. Não pude te ajudar, nem estar com você num momento tão difícil.”.
Foi então que desabafei e disse:
Não fique triste, menina! Estou bem viva e cheia de saúde.
As pessoas veem a doença como algo que chega para destruir a vida. Eu nunca pensei assim, eu sempre pensei que as doenças veem para que possamos superar e sair vitoriosos dela. Comprovando a nossa fortaleza e confirmando que somos filhos de Deus.
Lembro-me que, quando recebi a noticia do câncer quase desmaiei no consultório. No início, preferi não dizer pra ninguém porque não queria ser uma coitadinha, apenas minha família sabia. Algumas amigas vieram saber depois. Eu sofri muito no inicio. Quando se tem câncer, pensamos logo na morte e este pensamento tira as nossas forças ou, ao contrário, nos dar muita força para lutar.
Eu estudava, trabalhava e estagiava. Foi difícil. Meu emocional estava abalado, eu estava abalada. Mas resolvi optar por me agarrar a vontade de viver. Segurei em Deus que sempre foi meu protetor e segui em frente.
Chegava ao meu trabalho procurava dar tudo de mim, esquecia de todos os meus problemas, as vezes, me sentia mal. Mas chamava por Deus e lá estava ele me amparando. Depois de muito cansaço (trabalhava com crianças) desejava ir para casa, mas havia o estágio da faculdade eu precisava cumpri-lo, eu só formaria se o realizasse. Então, lá ia eu. Sentia muita dor nas pernas, tontura, contudo, procurava não reclamar muito, se eu reclamasse minha família não permitiria estudar e trabalhar.
Quando saia do estágio ia para faculdade. Nossa! A altura da noite, eu só sentia vontade de chorar e dormir ali mesmo na sala. Mas eu amava tanto estar na faculdade que superava aquilo ouvindo e participando dos debates sobre as disciplinas, as discussões de equipe, enfim, tudo que realizamos numa faculdade.
Chegava em casa muito cansada. Mas ao invés do descanso o que eu tinha pela frente era muitos planos de aulas, trabalhos da faculdade pra fazer. Nunca utilizei a “minha” doença para deixar de ser responsável, ao contrário, tudo isso me dava força para suportar o futuro incerto que viria pela frente.
Eu estava no 7º semestre de faculdade. Imaginem!! Muita coisa para realizar. Formatura a vista. Eu não podia me dar o luxo de ficar doente. O jeito seria lutar com todas as minhas forças, não só por mim, mas pela minha família.
Fiz uma cirurgia para retirada do tumor e fiquei muito pior porque precisava fazer o tratamento pós-cirurgia. Para isso, eu precisava fazer uma dieta horrível o que me fez emagrecer, fiquei com uma aparência inchada , entia dores nos ossos, muitas dores.
Entretanto, estava no auge da minha vida ,muita coisa para realizar. Na minha casa tem uma escada, lembro que quando eu descia, parecia que eu ia morrer de tanta dor nos ossos. A minha mãe dizia: “Minha filha, não vá trabalhar você não aguenta” Eu lembro que eu respondia: Não posso largar aquelas crianças lá , vou trabalhar sim.
Lembro-me que, quando contava histórias para os alunos sentia uma tontura e tudo escurecia. Mas havia um espirito comandado por Deus, me segurando em todas as vezes que me senti assim.
Precisava fazer o tratamento, mas precisava também, lutar para que eu mesma orgulhasse de mim. Foram dias, meses abençoados. Meu humor oscilava o tempo inteiro, mas não lembro ter ofendido ninguém por conta disso. Não queria que o câncer fosse o pivô das minhas falhas e falta de força.
Chorei muito, no colo da minha mãe, do meu marido e no colo de algumas amigas, principalmente, as meninas da faculdade que me davam força o tempo todo.
Minha formatura chegou, lembro que eu não podia maquiar meu rosto por causa de alguns componentes químicos da maquiagem .Eu sempre fui vaidosa e fiquei muito péssima. Chorei, sair do salto. Eu estava insuportável. Talvez tenha sido a primeira vez que eu sofri com todas as minhas forças. Eu estava fraca, feia sem graça. Mas, em meio a toda essa agonia, ainda assumi a organização da minha formatura. Fui eu, a líder da comissão. Foi uma missão árdua, mas que fez tudo passar mais rápido. Trabalho, estágio, relatórios da faculdade e a comissão de formatura foram providenciais para a minha recuperação.
Atualmente, continuo fazendo exames para que não aconteça novas recaídas, ou seja, a metástase. Porém, levo uma vida muito melhor que antes. Agora, eu sou uma pessoa melhor, mas paciente e acredito no meu poder de superar perdas e acontecimentos negativos que ocorrem na minha vida.Nas minhas orações não peço a Deus para me livrar do mal, mas sim, para me ajudar a supera-los.
Aprendi, tanta coisa. Deus, como eu aprendi.
Aprendi que não adianta tanta arrogância ,intolerância ,orgulho diante de alguns intempéries da vida. Ela nos ensina a viver. Deus, muitas vezes permite tais coisas na nossa vida, para darmos valor a cada ser a nossa volta. Perceber que nosso ar de superioridade não é nada diante das situações da vida. Perceber que precisamos de todos a nossa volta. Agradeço a oportunidade que Deus me deu mostrou pra mim que eu preciso de todos e que nada tem sentido sem lutar.
Para todos que tem, ou possam a vir a ter câncer.
O câncer, não é punição. Ao contrário, é um modo de testar nossa fé em Deus e no próximo. Fico feliz em saber que superei.
Agradeço a Deus, Aos meus pais, aos meus amigos, e principalmente a mim mesma. Porque se eu não quisesse, ninguém poderia me ajudar. Nem mesmo Deus. Ele nos dá a força, mas quem tem que reagir somos nós.
Repassem para as pessoas que têm câncer .quem sabe o resumo da minha história não poderá incentiva-los a seguir.
A doença toma conta do nosso corpo quando estamos abertos ao comodismo. se tivermos que morrer que seja lutando.

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